Autor: Mariane Domingos (página 32 de 43)

[Lista] 5 ótimos livros de ensaios

Ensaios não estão entre as categorias mais populares da literatura. Há quem diga que são muito teóricos e difíceis de entender. Para mim, é justamente o contrário. Ler um ensaio é a oportunidade de decifrar um autor e chegar mais perto de compreender toda sua obra. Nesse gênero, os escritores abdicam das máscaras atenuantes da ficção e expõem suas opiniões e experiências da forma mais sincera e direta, nos fazendo refletir sobre nossas próprias posições. Confira, abaixo, uma seleção com meus cinco livros de ensaios favoritos.

1. A Vida Descalço, de Alan Pauls: a escrita do autor argentino não poderia encontrar melhor morada que no gênero de ensaios. Mesmo em seus romances, Pauls é capaz de conduzir longas digressões até esgotar um assunto, sem perder a linha de raciocínio nem a atenção do leitor.

Em A Vida Descalço, o tema é a praia. Misturando memórias de infância às da vida adulta, inclusive sua primeira viagem ao Rio de Janeiro, o escritor desenvolve um ensaio sobre a praia como um ambiente imaginário, em que desejo, ilusão e novos códigos sociais são estabelecidos:

Só uma familiaridade muito precoce com os usos e costumes da praia pode, de fato, embaçar o brilho de uma obviedade que ainda hoje deveria nos deslumbrar: a praia é o único espaço público onde a nudez quase completa não é uma exceção nem uma infração provocadora, e sim um princípio de existência, uma forma de vida, a lei – tácita e unânime, mas não coercitiva – que rege a convivência humana.

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“A verdadeira divisão da humanidade é esta: os que possuem a luz e os que só têm trevas.

Diminuir o número dos últimos, aumentar o número dos primeiros, eis a verdadeira finalidade das coisas. É por isso que gritamos: – Ensino! ciência! – Aprender a ler é iluminar com fogo; cada sílaba é uma centelha.”

 

Victor Hugo em Os Miseráveis

[Resenha] A Vida dos Elfos

A união é a urgência dos nossos tempos. Essa ideia, tão simples quanto necessária, ganha vida nas criaturas e terras mágicas do belo romance A Vida dos Elfos, da autora francesa Muriel Barbery.

Depois do sucesso mundial de A Elegância do Ouriço, Barbery deixa o realismo e se arrisca na literatura fantástica, sem perder o requinte e a profundidade que já são marcas da sua escrita.

Na trama, duas jovens órfãs, Clara e Maria, têm uma ligação misteriosa que se esclarece à medida que são desvendados os segredos em torno das origens de cada uma.

Maria vive em uma região rural da Borgonha e é cercada por pessoas de pouca instrução, mas que têm a sabedoria que apenas a pureza do contato diário com a natureza pode prover. A comunidade acolheu a menina ainda bebê, quando ela foi abandonada nas redondezas, em um dia de muita neve. Desde a chegada de Maria, a região não conhece a escassez da terra. Os pomares e a caça se mantêm abundantes durante as quatro estações do ano. A relação simbiótica de Maria com a natureza é uma das chaves da narrativa:

Compreendera muito cedo que os outros se moviam no campo como cegos e surdos para quem as sinfonias que ela ouvia e os quadros que contemplava não passavam de ruídos da natureza e paisagens mudas.

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[Escritores] Ian McEwan

A relação da literatura com a realidade foi o tema da palestra de Ian McEwan no Fronteiras do Pensamento, na última quarta-feira, em São Paulo. O escritor britânico, autor de obras de sucesso, como Reparação e Solar, afirmou que o encontro entre esses dois mundos é inevitável:

Todos os romancistas que escrevem ficção estão lidando com a realidade em que vivemos.

McEwan divertiu a plateia com uma série de anedotas sobre mensagens que recebeu de leitores apontando deslizes na acurácia de sua narrativa. A constelação que nunca poderia estar ali, naquele lugar onde a cena se desenrola, àquela época do ano. A troca de marcha do carro que jamais aconteceria, porque aquela linha da Mercedes só trabalha com transmissão automática. O pincel, que em um procedimento cirúrgico real, seria uma esponja. Detalhes não passam despercebidos por quem é especialista no assunto ou apenas atencioso. O leitor sente a necessidade de se identificar com aquilo que lê e o realismo tem um papel fundamental nesse processo.

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“Para Tereza, o livro era o sinal de reconhecimento de uma irmandade secreta. De fato, contra o mundo de grosseria que a cercava, tinha uma só arma: os livros que tomava emprestados na biblioteca municipal (…) gostava de passear na rua com livros debaixo do braço. Eram para ela o que a elegante bengala era para um dândi no século passado. Eles a distiguiam das outras.”

 

Milan Kundera em A Insustentável Leveza do Ser

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