Autor: Mariane Domingos (página 31 de 43)

“Assim é que, no decorrer de nossas vidas, nossas maiores fraquezas e mesquinharias costumam ser motivadas pelas pessoas que mais desprezamos.”

 

Charles Dickens em Grandes Esperanças

[Resenha] Sobre a Beleza

As famílias são microcosmos da sociedade. A escritora inglesa Zadie Smith explora essa ideia, com maestria, ao dar vida aos Belsey, clã que protagoniza seu romance Sobre a Beleza, obra finalista do Man Booker Prize e vencedora do prêmio Orange, de ficção.

Howard Belsey, inglês, branco e professor universitário, é casado há trinta anos com Kiki, uma enfermeira afro-americana. Eles são pais de Jerome, estudante de Brown, Zora, que frequenta a universidade em que o pai leciona, e Levi, um colegial que despreza o ambiente acadêmico de sua família. Já na descrição da casa dos Belsey, em Wellington, na Nova Inglaterra, Smith introduz com sutileza questões raciais e sociais que irão permear toda a narrativa:

A escada em si é um espiral íngreme. Para oferecer distração na descida, foi pendurada nas paredes uma galeria fotográfica da família Belsey (…). Estão dispostos em triunfante e calculada sequência: a tataravó de Kiki, uma escrava doméstica; a bisavó, criada; e depois sua avó, uma enfermeira. Foi a enfermeira Lily que herdou toda essa casa de um benevolente médico branco ao lado do qual trabalhou vinte anos na Flórida. Uma herança dessa escala muda tudo para uma família pobre americana; ela se torna classe média.

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[Divã] Retrospectiva literária 2016

31 livros, 5642 páginas. Meu ano literário foi muito mais que isso. O marco zero desta retrospectiva tão positiva não poderia ser outro: em 2016, nasceu o Achados & Lidos.

Com o blog, tornei-me uma leitora melhor. E me refiro mais à qualidade que à quantidade. As resenhas do Notas de Rodapé e principalmente o Clube do Livro me ensinaram a digerir o que eu leio. Também perdi a conta de quantas vezes vasculhei minhas prateleiras nos últimos meses em busca de títulos para escrever uma Lista da Semana, um Leitor no Divã ou um Marque a Página. Folheei os livros, reli trechos, lembrei-me de personagens. Minha memória literária nunca trabalhou tanto. E foi ótimo.

Também me engajei mais com temas literários. Na ânsia por compartilhar notícias relevantes desse universo com nossos leitores, redobrei a atenção para as novidades. Acompanhei premiações como se fossem final de Copa do Mundo. Vibrei com Raduan Nassar vencendo o Prêmio Camões, empolguei-me com o Julián Fuks ganhando o Prêmio Jabuti e estou até agora tentando entender o Nobel de Bob Dylan (confesso que esse último foi como assistir a um gol contra).

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“… isso é o bom de ser partido ao meio: entender de cada pessoa e coisa no mundo a tristeza que cada um e cada uma sente pela própria incompletude. Eu era inteiro e não entendia, e me movia surdo e incomunicável entre as dores e feridas disseminadas por todos os lados, lá onde, inteiro, alguém ousa acreditar menos.”

 

Italo Calvino em O Visconde Partido ao Meio

[Resenha] A Paixão Segundo G.H.

Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável.

A Paixão Segundo G.H. é um livro sobre a busca pelo real e pelo divino. Em pouco menos de duzentas páginas, Clarice Lispector escancara, através da personagem G.H., a condição humana.

Viver, segundo ela, é um segredo inalcançável para a grande maioria das pessoas que gasta os dias em um sonambulismo confortável, evitando uma epifania aterradora. Não ter a consciência da vida é o padrão, não a exceção.

Apesar da profundidade do enredo, Lispector não perde de vista a trivialidade do cotidiano. A escritora encontra nos fatos mais banais os gatilhos para o turbilhão de descobertas que coroa a narrativa.

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